quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Tempo de reflexão

Não fui educada numa família católica. Na verdade, acho que na minha família há pessoas de quase todas as religiões. Cedo aprendi a conviver com isso e nunca me consegui identificar com nenhuma delas. Apesar disso, acho que os meus pais conseguiram ensinar-me o verdadeiro espírito do Natal. Os meus avós paternos e todo o seu amor ensinaram-me a ajudar, a partilhar, a cuidar dos que nos amam. E durante a minha vida, no meu crescimento enquanto ser humano, fui tentando que esse espírito se limitasse cada vez menos a apenas um dia por ano.


Sempre sofri quando via pessoas nas ruas em Lisboa, quando sabia que alguém não tinha o que comer. Houveram tempos menos bons em minha casa e sei o que é viver com limitações. Sei dar valor ao que consegui obter. Hoje consigo ter uma vida relativamente desafogada, mas nunca sabemos quando é que esta segurança pode mudar.


Continua a chocar-me ver pessoas a comprarem desenfreadamente coisas nas lojas na altura do Natal e pensar que em Janeiro terão pouco alimento na mesa. Custa-me. Mas custa-me ainda mais saber que há pessoas que não têm mesmo nada e que este país não as vai conseguir ajudar. Quem me dera que todos fizessem a sua parte, como eu tento fazer, para que pudesse ser mais vezes Natal na vida de tantas pessoas que sofrem e não têm nada, não por preguiça ou desleixo, mas porque a vida simplesmente não é justa...




P.S.:


Avô e avó, continuo a recordar sempre os nossos Natais. Tenho saudades da avó a amassar as filhóses de abóbora, do cheiro da comida que faziam (o meu avô ajudava sempre a minha avó, um anjo nesta terra, um homem muito à frente do seu tempo no que diz respeito ao tratamento das mulheres), do avô a ir buscar a cidreira para fazer o seu chá, dos nossos cafézinhos Pensal a fingir que éramos meninas grandes e dos desenhos que fazia para nós enquanto esperávamos pelo jantar. A estrela brilhante que está no cimo da minha árvore representa 4 pessoas. Vocês são duas delas.

8 comentários:

Patrícia disse...

Sem palavras... O PS deixou-me de lágrima no olho... está lindo*

Sofia disse...

Gostei muito do texto, principalmente do post scriptum.

mari disse...

:S
belo e doloroso ...
**

Panda disse...

Lindo lindo o teu ps. Ainda bem que tiveste momentos desses, infelizmente os meus avós ainda eram do antigamente, pessoas que não valorizavam filhos nem netos. Já os meus pais são 5*. Feliz Natal!

*Lili* disse...

Gostei muito minha linda :) fazes me lembrar os meus avós mas infelizmente nunca foram como os teus no entanto adoro-os à mesma e sempre os adorei. Nunca fizeram se não bem a mim, já aos meus pais...infelizmente é outra história...outros tempos...

Dulce disse...

Ao ler este bonito texto senti que tenho muita coisa em comum contigo... :) Para começar, na minha família há gente de todos os credos, é uma amálgama de religiões e crenças! :)

Depois também me custa imenso ver que as pessoas nesta época perdem as estribeiras e pôem em causa o sustento dos meses seguintes...
Também na minha família já se soube o que é viver com limitações económicas (felizmente essa fase aconteceu quando eu era muito pequena e nem me apercebia bem das coisas...) Mas acho que ainda assim, por ter aprendido a partilhar tudo com duas irmãs, sempre dei muito valor às coisas e sempre respeitei (e compreendi) aqueles que têm menos...

Por fim, adorei a alusão ao chá de cidreira e às filhoses de abóbora porque eram duas coisas muito habituais em casa dos meus avós! :) Infelizmente hoje em dia já não tenho nenhuns, mas lembro-me deles todos os dias!

Petra disse...

Huuummm na nossa casa também se cultivam muito as tradições natalícias... Os sonhos de abóbora, o bolo rei que fazemos em casa, o peru que a minha mãe recheia no dia anterior... e claro o jantar de bacalhau assado e cozido para agradar a todos.
E claro o vinho sempre a acompanhar! feliz natal para ti!

Deia disse...

achei isto tão doce e tão verdadeiramente encantador. Um mimo ler coisas assim. :) Obrigada, querida! :)