Não fui educada numa família católica. Na verdade, acho que na minha família há pessoas de quase todas as religiões. Cedo aprendi a conviver com isso e nunca me consegui identificar com nenhuma delas. Apesar disso, acho que os meus pais conseguiram ensinar-me o verdadeiro espírito do Natal. Os meus avós paternos e todo o seu amor ensinaram-me a ajudar, a partilhar, a cuidar dos que nos amam. E durante a minha vida, no meu crescimento enquanto ser humano, fui tentando que esse espírito se limitasse cada vez menos a apenas um dia por ano.
Sempre sofri quando via pessoas nas ruas em Lisboa, quando sabia que alguém não tinha o que comer. Houveram tempos menos bons em minha casa e sei o que é viver com limitações. Sei dar valor ao que consegui obter. Hoje consigo ter uma vida relativamente desafogada, mas nunca sabemos quando é que esta segurança pode mudar.
Continua a chocar-me ver pessoas a comprarem desenfreadamente coisas nas lojas na altura do Natal e pensar que em Janeiro terão pouco alimento na mesa. Custa-me. Mas custa-me ainda mais saber que há pessoas que não têm mesmo nada e que este país não as vai conseguir ajudar. Quem me dera que todos fizessem a sua parte, como eu tento fazer, para que pudesse ser mais vezes Natal na vida de tantas pessoas que sofrem e não têm nada, não por preguiça ou desleixo, mas porque a vida simplesmente não é justa...
P.S.:
Avô e avó, continuo a recordar sempre os nossos Natais. Tenho saudades da avó a amassar as filhóses de abóbora, do cheiro da comida que faziam (o meu avô ajudava sempre a minha avó, um anjo nesta terra, um homem muito à frente do seu tempo no que diz respeito ao tratamento das mulheres), do avô a ir buscar a cidreira para fazer o seu chá, dos nossos cafézinhos Pensal a fingir que éramos meninas grandes e dos desenhos que fazia para nós enquanto esperávamos pelo jantar. A estrela brilhante que está no cimo da minha árvore representa 4 pessoas. Vocês são duas delas.